Urbanismo que favorece a insegurança

Marcílio Albuquerque
Folha-PE

Diferenças na percepção de homens e mulheres na construção de uma cidade melhor estão no alvo de estudos do programa de Desenvolvimento Urbano da UFPE. Segundo a pesquisa, a desertificação de ruas, praças e avenidas ainda se mostra como entrave ao bem estar.

Os dados também se debruçam sobre a insegurança. Para o público feminino, o medo está relacionado à integridade física, o assalto à mão armada e o assassinato. Já o recorte masculino apresenta mais temor dos crimes relacionados ao patrimônio, como a subtração de veículos e o arrombamento de residências. Em comum, segue o desejo de construir lugares mais saudáveis para viver.

“Em todas as partes do País, mulheres em diferentes idades sofrem com assédio, machismo e violência nos espaços públicos. Por aqui, a situação não é diferente. O medo e as incertezas afetam a sua qualidade de vida e acabam limitando o seu direito de ir e vir”, explicou a urbanista Lúcia Siqueira. Segundo ela, as interferências na construção de uma cidade mais favorável alcançam diversas esferas. “Não se trata apenas de policiamento, mas de uma rede social que se desenvolve nas ruas. São necessárias pessoas caminhando, comércio de portas abertas, imóveis de uso misto e a diversidade no uso de equipamentos públicos. Todos podem colaborar”.

Serviços precários
Um levantamento da organização ActionAid mostra a dualidade da presença masculina (ora agressor, ora protetor), no universo das mulheres. A precariedade dos serviços públicos, como a baixa iluminação, também encabeçam a linha de estudo. Conforme os dados, 98% relataram já ter desviado o trajeto por conta da escuridão na rua alguma vez e 54% delas o fazem com muita frequência. Ainda no apanhado, 96% disseram que ruas e praças não são seguras, principalmente para adolescentes. Grande parte delas já deixou de sair de casa em determinado horário com receio de sofrer algum tipo de assédio ou violência.

Para a professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, Lívia Nóbrega, espaços mais abertos e participativos também são considerados peças chaves para uma convivência harmoniosa, incluindo, desta vez, homens e mulheres.

Inclusão
Entre os pilares estão construções com muros mais baixos e com recuo menor em relação à via, mobiliários como bancos para promover a ocupação natural, e, ainda, janelas e varandas mais abertas. “A nossa ideia é de reacender a discussão de como o planejamento urbano pode ser mais inclusivo, chamando os cidadãos para discuti-lo de forma mais abrangente. O grande mote é a conexão de pessoas com a cidade que não para de crescer ao seu redor”, disse.

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo em Pernambuco, Roberto Montezuma, reforça o conceito de cidades mais abertas e convidativas. “As ruas e calçadas são as primeiras plataformas no cumprimento da função das cidades, que é a troca de experiências. A presença humana é imprescindível para que isso aconteça”. Segundo ele, as fachadas de prédios sem abertura e as casas completamente isoladas acabam enfraquecendo a adoção de políticas públicas.

Folha resume
Pesquisadores da UFPE elencam falhas no processo de urbanização do Recife. O fator segurança e as diferentes percepções entre homens e mulheres estão no alvo da pesquisa. Entre os pilares está a necessidade de construções com muros mais baixos, mobiliários como bancos para promover a ocupação natural, e, ainda, janelas mais abertas.

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