À espera de um padrinho
Diego Mendes e Maria Luyza, da Folha de Pernambuco
Apoiar, favorecer, proteger. A palavra apadrinhar tem diversos sinônimos. Mas para as crianças que vivem em abrigos tem um significado especial nesta época: passar as festas de fim de ano em família, mesmo que não seja aquela em que nasceram. O gesto repleto de vontade de doar carinho e atenção aos pequenos está disponível nas Varas da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).
Para a segurança das crianças, o processo de apadrinhamento requer alguns cuidados, como cadastro, entrevista e uma visita de um dos funcionários que integram a equipe psicossocial do TJPE. “Temos que nos cercar de cuidados. Mas podemos garantir: o ganho emocional é grande tanto para o padrinho quanto para o apadrinhado. Conviver com pessoas de fora mostra às crianças que elas podem ser amadas”, ressalta Maria Aparecida Rafael, diretora do Abrigo Casa de Meu Pai, que fica no bairro de Rio Doce, em Olinda, e tem 10 meninos (cinco crianças e cinco adolescentes) à espera de um padrinho/madrinha. O abrigo está integrado ao Projeto Anjos de Olinda, que é coordenado pela Vara da Infância e da Juventude de Olinda.
"O ganho emocional é grande tanto para o padrinho quanto para o apadrinhado. Conviver com pessoas de fora mostra às crianças que elas podem ser amadas”, garante Maria Aparecida, diretora do Abrigo Casa do Meu Pai
Falar de pai, mãe e avós fez Gabriel Gomes, 6 anos, chorar em um canto do terraço do Abrigo Casa do Meu Pai. Em lágrimas, o menino explicou o motivo de tamanha tristeza. “Quero ir para casa da minha avó”, disse. Apesar de deixar muitos corações partidos, afastá-lo da família há cinco meses foi a solução encontrada pela Justiça para preservar a integridade física e não comprometer ainda mais seu desenvolvimento futuro. Um padrinho na vida de Gabriel, mesmo que só durante as festas de fim de ano, pode mostrar que o mundo é melhor do que o apresentado a ele até então.
O processo
O apadrinhamento tem duas modalidades: a afetiva e a financeira. Ambas podem ser feitas durante o ano todo, e não apenas nas festas de fim de ano. No apadrinhamento financeiro, o padrinho não precisa ter contato com a criança. Ele financia cursos que garantam a inclusão dos jovens no mercado de trabalho. Também podem custear escolas, estágios e práticas esportivas.
Já no afetivo, o interessado tem contato direto com o afilhado. A modalidade tem o intuito de proporcionar vivências familiares cotidianas, como um passeio na praia, parque ou shopping. Nada impede que os dois vínculos sejam mantidos.
Participação
Se para adotar é necessário e fundamental amadurecer a ideia a ponto de gerar psicologicamente um filho, para apadrinhar o processo pode ser mais rápido e fácil, embora de ampla importância e responsabilidade. Os interessados precisam ser maiores de 18 anos. E para se candidatar é preciso preencher uma ficha de inscrição, disponibilizada nas Varas da Infância e Juventude, comparecer com cópias do RG, CPF, comprovante de residência, atestado de idoneidade moral e sanidade física e mental. Após essa etapa, será realizada uma entrevista psicossocial com a equipe do TJPE, seguida da visita domiciliar.
Pioneirismo
No Estado, a 2ª Vara da Infância e Juventude do Recife foi a primeira a abraçar essa ideia de apadrinhar. Na Capital, esse trabalho é desenvolvido pelo Núcleo de Apadrinhamento Estrela Guia (Naeg) desde 2002. O juiz Élio Braz é o titular da Vara e responsável pelo programa.
Braz alerta que o objetivo não é passar de padrinho para pai adotivo. Do início até agora, apenas 10% dos apadrinhamentos resultaram em adoção. “E isso só foi possíve porque se percebeu um vínculo familiar e uma apreciação do caso foi feita. O programa começa com o desejo e vontade de dar amor a crianças. Isso melhora o rendimento escolar, aumenta a imunidade e estimula o convívio social”, explicou o magistrado.
Serviço
Núcleo de Apadrinhamento Estrela Guia
Telefones: (81) 3181 5917 / 3181 5978
Anjos de Olinda
Programa de apadrinhamento de crianças e adolescentes. Telefone: (81) 3182-2681
Casa de Meu Pai
Telefone: (81) 3429-0278

Comentários
Postar um comentário