Musicais brasileiros renascem no Festival de Cinema de Gramado
Hermila e Irandhir bailam sob direção de Alceu. Foto: Antonio Melcop/ Divulgação
Júlio Cavani
Diario de Pernambuco
Apesar de ser um país sempre associado à música, o Brasil não tem uma produção cinematográfica constante no gênero musical. Filmes musicais surgem esporadicamente com longos intervalos. Um fenômeno raro, portanto, será visto esta semana no Festival de Gramado, onde há dois longas-metragens na programação com diálogos cantados: Sinfonia da necrópole, da paulista Juliana Rojas, e A luneta do tempo, do pernambucano Alceu Valença.
O gênero musical tem uma forma de contar histórias mais próxima da ópera ou do balé, onde os personagens vivem em uma espécie de universo paralelo onde cantar e dançar são gestos que surgem em qualquer situação, absolutamente a qualquer momento. Filmes biográficos recentes, como 2 filhos de Francisco, Cazuza, Villa-Lobos e Gonzaga: De pai pra filho, apesar de girarem em torno da música, não entram nessa classificação, assim como Chega de saudade, Os desafinados ou A orquestra dos meninos. Nesses casos, as canções, apesar de fundamentais, são passivas, pois a narrativa das cenas não é estruturada musicalmente como ocorre em grandes clássicos do gênero. Documentários também não se enquadram. Em Hollywood, A noviça rebelde e Cantando na chuva seriam os exemplos mais famosos e Os miseráveis é um caso mais atual.
Os musicais tiveram mais força na cinematografia brasileira entre as décadas 1930 e 1950, na época das chanchadas de estúdios como a Atlântida, com a participação de Carmem Miranda e Luiz Gonzaga, entre outros astros. A partir de 1980, as canções ressurgiram nos cinemas com produções infantis principalmente dos Trapalhões e de Xuxa, com outros exemplos pontuais como A ópera do malandro, de Ruy Guerra, baseado na peça de Chico Buarque. Movimentos como a Jovem Guarda dos anos 60 (Roberto Carlos e Wanderléia protagonizaram filmes), o rock nacional dos 80 (Bete Balanço) e a axé music dos 90 (Cinderela baiana) também aproveitaram o mercado cinematográfico para divulgar seus artistas.
Alceu, um diretor-compositor
A luneta do tempo, primeiro filme dirigido por Alceu Valença, é um caso raro no cinema brasileiro. Trata-se, afinal, de um longa-metragem musical com absolutamente todos os diálogos cantados ou pelo menos rimados. No contexto internacional,Os miseráveis é um exemplo recente desse tipo de empreitada.
O trabalho de roteirista confunde-se com o de compositor. Todas as palavras mencionadas pelos personagens foram escritas pelo próprio Alceu, que pré-gravou as músicas com sua voz e as entregou ao elenco antes do início das filmagens (era uma espécie de storyboard sonoro). Os atores não podiam errar uma síliaba e precisavam sincronizar suas vozes com a melodia original das canções.
O resultado é equivalente a um novo disco de Alceu Valença, totalmente inédito, com uma hora e 37 minutos de duração, mas desta vez acompanhado de imagens e diversas vozes, de intérpretes como Irandhir Santos Hermila Guedes, Servílio Holanda, Hélder Vasconcelos, Ary de Arimatéia, Charles Teony e Khrystal. Ao todo, 32 atores participaram.
A musicalidade é baseda nas tradições do foclore nordestino, com a presença de instrumentos como a rabeca, a sanfona e a zabumba, mas com a liberdade experimental que sempre caracterizou o trabalho do cantor. A luneta do tempo nunca foi projetado em público e seu nascimento oficial ocorrerá na próxima quarta no Festival de Gramado.
O gênero musical tem uma forma de contar histórias mais próxima da ópera ou do balé, onde os personagens vivem em uma espécie de universo paralelo onde cantar e dançar são gestos que surgem em qualquer situação, absolutamente a qualquer momento. Filmes biográficos recentes, como 2 filhos de Francisco, Cazuza, Villa-Lobos e Gonzaga: De pai pra filho, apesar de girarem em torno da música, não entram nessa classificação, assim como Chega de saudade, Os desafinados ou A orquestra dos meninos. Nesses casos, as canções, apesar de fundamentais, são passivas, pois a narrativa das cenas não é estruturada musicalmente como ocorre em grandes clássicos do gênero. Documentários também não se enquadram. Em Hollywood, A noviça rebelde e Cantando na chuva seriam os exemplos mais famosos e Os miseráveis é um caso mais atual.
Os musicais tiveram mais força na cinematografia brasileira entre as décadas 1930 e 1950, na época das chanchadas de estúdios como a Atlântida, com a participação de Carmem Miranda e Luiz Gonzaga, entre outros astros. A partir de 1980, as canções ressurgiram nos cinemas com produções infantis principalmente dos Trapalhões e de Xuxa, com outros exemplos pontuais como A ópera do malandro, de Ruy Guerra, baseado na peça de Chico Buarque. Movimentos como a Jovem Guarda dos anos 60 (Roberto Carlos e Wanderléia protagonizaram filmes), o rock nacional dos 80 (Bete Balanço) e a axé music dos 90 (Cinderela baiana) também aproveitaram o mercado cinematográfico para divulgar seus artistas.
Alceu, um diretor-compositor
A luneta do tempo, primeiro filme dirigido por Alceu Valença, é um caso raro no cinema brasileiro. Trata-se, afinal, de um longa-metragem musical com absolutamente todos os diálogos cantados ou pelo menos rimados. No contexto internacional,Os miseráveis é um exemplo recente desse tipo de empreitada.
O trabalho de roteirista confunde-se com o de compositor. Todas as palavras mencionadas pelos personagens foram escritas pelo próprio Alceu, que pré-gravou as músicas com sua voz e as entregou ao elenco antes do início das filmagens (era uma espécie de storyboard sonoro). Os atores não podiam errar uma síliaba e precisavam sincronizar suas vozes com a melodia original das canções.
O resultado é equivalente a um novo disco de Alceu Valença, totalmente inédito, com uma hora e 37 minutos de duração, mas desta vez acompanhado de imagens e diversas vozes, de intérpretes como Irandhir Santos Hermila Guedes, Servílio Holanda, Hélder Vasconcelos, Ary de Arimatéia, Charles Teony e Khrystal. Ao todo, 32 atores participaram.
A musicalidade é baseda nas tradições do foclore nordestino, com a presença de instrumentos como a rabeca, a sanfona e a zabumba, mas com a liberdade experimental que sempre caracterizou o trabalho do cantor. A luneta do tempo nunca foi projetado em público e seu nascimento oficial ocorrerá na próxima quarta no Festival de Gramado.
Comédia musical funerária
Vencedor do prêmio de melhor trilha sonora no Paulínia Film Fest, Sinfonia da necrópole promove a improvável combinação entre musical, comédia e suspense. A diretora Juliana Rojas já havia experimentado o terror em curtas e no longa-metragemTrabalhar cansa (dirigido em dupla com Marco Dutra), mas ela consegue desconstruir gêneros com o novo filme, que se passa em um cemitério. Com letras escritas pela diretora e roteirista, as canções foram produzidas e compostas por Marco Dutra e Ramiro Murilo. A exibição em Gramado está marcada para a próxima quinta.
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ENTREVISTA - JULIANA ROJAS
Você já se interessava por musicais ou a vontade de trabalhar com esse gênero surgiu com esse projeto específico?
Desde criança assisto a desenhos animados, que usam o gênero musical, e durante a adolescência passei a me interessar pelos filmes musicais, principalmente dos anos 30.
As letras foram escritas antes, depois ou ao mesmo tempo que as músicas?
A maioria das letras foi escrita antes e as músicas foram compostas em seguida.
As canções do filme intercalam a história mas não chegam a ser decisivas para os rumos da trama, que se desdobra mais nos diálogos não-cantados e nas ações em si. Você chegou a pensar em fazer um filme com todos os diálogos cantados?
Não. Para mim era importante que os números musicais entrassem como um momento de suspensão. Mesmo que nem todas as sequências tragam informações objetivas sobre a trama, as músicas têm uma função dramatúrgica, pois através delas os personagens comentam os acontecimentos e podem se expor de maneira mais complexa. Elas também servem como ferramenta de ironia e distanciamento narrativo.
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| "A música tem função dramatúrgica" |
Os atores receberam as músicas prontas (cantadas por alguém) antes de começarem a ensaiar?
O Marco e o Ramiro faziam gravações caseiras pra que eu pudesse entender como as canções soariam. Eram rascunhos das músicas, só com voz e piano. Tivemos um período de preparação, em que os atores receberam esses arquivos para se familiarizar com as melodias e em seguida passaram por um laboratório com a preparadora vocal Cecília Spyer, que ensaiou as músicas com eles.
Havia algum tipo de liberdade de improvisação ou os atores precisavam estar 100% sincronizados com as músicas pré-existentes?
Sim, precisavam estar sincronizados, até porque a gravação em estúdio das vozes dos atores foi feita antes do início das filmagens. As adaptações necessárias de andamento e inflexão das melodias cantadas foram feitas durante a preparação vocal com os atores, na pré-produção do filme.
Na sua opinião, por que filmes musicais são tão raros no Brasil? Você lembra de alguns exemplos clássicos de musicais brasileiros?
Acho que pode ter a ver com não existir uma tradição tão forte, como em outros países, de espetáculos de encenação musical (principalmente com dramaturgia e músicas originais), apesar de o Brasil ter uma produção musical de alta qualidade e muito diversificada. Se olharmos para o cinema de hollywood,a maioria dos filmes musicais é baseada em montagens da Broadway. Mas, em geral, acho que é um gênero cada vez menos apreciado. Quanto ao cinema brasileiro, me lembro mais de Bonequinha de seda (1936, produzido pela Cinédia) e as chanchadas da Atlântida, como Alô, alô, Carnaval, Carnaval na Atlântida, Aviso aos navegantes, etc.
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15 MUSICAIS DO CINEMA BRASILEIRO
- Amor, Plástico e Barulho (2013)
- Jardim Atlântico (2012)
- High School Musical: O desafio (2010)
- Ó Paí Ó (2007)
- Xuxa Requebra (1999)
- Cinderela Baiana (1998)
- A Ópera do Malandro (1986)
- Bete Balanço (1984)
- Os Saltimbancos Trapalhões (1981)
- Trilogia de Roberto Carlos (1968 a 1971)
- Juventude e ternura (1968)
- Carnaval Atlântida (1952)
- Carnaval no fogo (1949)
- Este mundo é um pandeiro (1947)
- Alô Alô Carnaval (1938)
CINCO MUSICAIS RECENTES DE OUTROS PAÍSES
- Os Miseráveis (EUA)
- As Canções de Amor (França)
- Across the Universe (Inglaterra)
- Perhaps Love (China)
- Dançando no Escuro (Dinamarca)
Trailer do francês As Canções de amor:




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