Primeira professora com Down do Brasil mostra importância da inclusão

Débora Seabra estudou em escolas regulares e foi estimulada pelos pais a fazer atividades
Foto: Morais Neto/divulgação


Kívia SoaresDo NE10/Rio Grande do Norte
Os olhos puxados de Débora Araújo Seabra de Moura, 32 anos, revelam muito do que podemos enxergar. A primeira portadora da síndrome de Down a se formar professora com magistério no Brasil venceu barreiras e preconceitos, provando que a inclusão é possível em qualquer lugar. De personalidade tranquila e autoestima contagiante, a potiguar que mora em Natal (RN) é ativa e desbravadora e a escola teve papel fundamental na sua caminhada. Neste 15 de outubro, quando se comemora o Dia do Professor, a história de Débora vem nos trazer um exemplo de luta pela inclusão de pessoas com deficiência intelectual na rede regular de ensino.

Quando menina, Débora Seabra sempre estudou em escolas regulares junto com outras crianças sem a síndrome e driblou as adversidades. Seus pais acreditavam que ela precisava de desafios e a estimularam desde cedo a ser independente. E em casa sempre foi tratada como o irmão mais velho, sem diferenças. "A escola me fez se sentir incluída, lá fiz muitas amizades”, conta Débora. 

A educadora explica que a vontade de ingressar na profissão nasceu de uma experiência que teve no ano 2000, quando foi estagiária numa turma do ensino infantil no Colégio CIC, na capital potiguar. Na instituição, ela também era professora auxiliar e adorou tanto que decidiu fazer o magistério. “Eu adorei e muitas vezes me emocionei ao ser chamada de professora”, disse. Débora então cursou por quatro anos o magistério na Escola Estadual Luís Antônio, se formando em 2005.

 
Débora na época que cursava o magistério (Foto: Acervo Pessoal)

Hoje, Débora Seabra é professora auxiliar de uma escola particular tradicional da cidade, onde trabalha há nove anos. Ela se dedica pela manhã a uma turma de alunos da educação infantil com faixa etária entre seis e sete anos. Débora acompanha as crianças em diversas atividades como leitura, aulas de informática, nas brincadeiras e auxilia também nas tarefas em sala, sempre com a supervisão da  professora titular da turma. 

“Eu faço como toda professora auxiliar faz. Eu levo eles para a roda, ajudo nas aulas de informática, de música e de inglês. Também na leitura dos livros, nas atividades e brincadeiras. Tudo de acordo com o planejamento pedagógico”, disse. "Adoro trabalhar com as crianças", destaca. E revela que se sente bem no seu local de trabalho, onde foi muito bem recebida pelos funcionários, professores e alunos. “Lá nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Eu sou respeitada, nunca surgiu isso”, diz.
  
A professora potiguar diz que é muito feliz com sua profissão (Foto: Acervo Pessoal)

Apesar de todo o respeito que adquiriu, Débora, assim como outras pessoas com Down, também já passou por alguma situação constrangedora. “Na rua já aconteceu. E também quando fazia magistério, já passei por isso. Na turma algumas colegas de classe me excluíam e me deixavam de lado nos trabalhos. Foi uma luta muito grande, mas consegui”, acrescenta. Durante os estudos foi difícil para a jovem, pois não eram todas as pessoas que compreendiam o processo de inclusão.

LAZER - Quando não está trabalhando, Débora não gosta muito de ficar parada. Além dos compromissos como educadora e das reuniões pedagógicas sempre nas tardes de terça-feira, ela se ocupa com outras atividades. Praticante assídua das aulas de spinning e musculação, vai à academia três vezes por semana.

Sobre seu hobby, falou que gosta de sair para um shopping da cidade e jogar conversa fora numa das cafeterias do lugar com os amigos que conheceu no teatro, outra paixão. “Eles não têm Down. Sou a incluída (risos). Conheci eles nas oficinas do Centro Experimental de Teatro, o Vitor, a Graça e o Raniere. Nos divertimos muito”, comenta.

Das artes, foi pelo teatro que Débora se encantou e fez curso de atriz, o que também ajudou a melhorar sua desenvoltura. Inclusive, já encenou algumas peças teatrais na capital potiguar. “Desde 2008, eu já fiz a comédia o Moço que Casou com Mulher Braba, e também teve em dezembro no mesmo ano, o Auto de Natal, uma espécie de presépio onde fui uma das Marias do espetáculo. Outra peça foi em 2009, quando já estava no segundo módulo do curso de teatro fiz o drama-comédia As Casadas Solteiras”, lembra.

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