Confiança X desconfiança: quem vence a guerra?
247 – O presente contra o passado, o otimismo diante da fracassomania, a confiança versus a desconfiança. No grande debate macroeconômico, pairando acima dos números, estas são as dicotomias estabelecidas hoje. Os resultados pouco ou nada interessam, na medida em que servem para os dois lados. Comemora-se, de um lado, a criação de 196 mil novos empregos formais no Brasil no mês de abril. Do outro, lembra-se que este é o pior resultado desse indicador desde 2009. Acredita-se, numa ala, que é saudável para toda e qualquer economia apresentar saldos positivos no mercado de trabalho, ainda mais quando maiores até mesmo que os da maior economia do mundo, mas internamente engrossa a corrente dos que defendem o desaquecimento do emprego, quer dizer, o desemprego como fórmula mais ortodoxa de combater a inflação. Esta, por sua vez, tem sua taxa nos últimos doze meses inteira dentro da meta (6,49% para o teto estabelecido pelo BC de 6,50%) e tende a cair, em razão da redução nos preços dos alimentos. Mas se multiplicam as projeções de que a escalada dos preços é raivosa, e demanda medidas duras para ser domesticada.
Nesta sexta-feira 24, pesquisa internacional, feita em 39 países, com 37,5 mil pessoas, entre março e maio, foi divulgada com um resultado que deveria ser comemorado. O brasileiro é, de longe, o cidadão do mundo mais otimista com o futuro de suas finanças pessoais, o que melhor avalia, entre os latino-americanos, a condução da economia de seu país e, ainda, ocupa a segunda posição na aposta de uma melhora na atividade econômica geral dentro de um ano. Mas, em lugar de ser saudado, o alto astral nacional em meio à crise internacional é visto por muitos como desinformação e auto-engano.
Ex-presidente do Banco Central, o economista Armínio Fraga, numa coincidência sintomática, contrapôs, simultaneamente à notícia da pesquisa, uma visão tétrica do cenário econômico do Brasil atual. "Juros baixos me dão arrepios", disse ele, engrossando o coro dos que pressionam com todas as forças do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), que se reúne na próxima semana, para aumentar a taxa Selic. E não apenas. A exemplo dos ex-diretores do BC Ilan Goldfjan, atual economista-chefe e sócio do banco Itaú, e Alexandre Schwartsman, ex-HSBC e Santander, Fraga também tocou no ponto do "desaquecimento" do mercado de trabalho, tornado-se mais um a torcer publicamente pelo desemprego. Parece inacreditável que homens letrados e de responsabilidades, enriquecidos por suas leituras e ações sobre o mercado financeiro, saiam à luz para badalar pelo desemprego de milhares, talvez milhões de famílias, mas é isso mesmo o que está acontecendo.
DELFIM ENSINA - Contra essa visão, o professor Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento durante o regime militar, mas que é respeitado como uma das grandes inteligências do País, publicou na semana um artigo cujo título é uma pérola; Confiança, confiança, confiança, registrou Delfim na página A2 do jornal Valor Econômico (leia abaixo). Ele demonstrou que, se não houver a mínima crença entre os agentes econômicos, de que cada um cumprirá seu papel nas inúmeras conexões da atividade produtiva, a cadeia irá se quebrar e, com ela, o ciclo de crescimento.
No Brasil, porém, a lição de Delfim, baseada em Adam Smith, o primeiro teórico do pensamento econômico moderno, parece que não vale. Quando os resultados mostram que é possível até mesmo aproveitar a situação criada pela política econômica oficial, de estímulo ao mercado de consumo, preservação do emprego e subsídios à camada mais pobre da população, em lugar de arregaçar mangas e avançar sobre o fabuloso mercado nacional, o que economistas como Fraga, Goldfjan e Schawrstman pregam é a acomodação à crise, o aumento da especulação, a retomada da ciranda financeira. Tudo o que um bom aumento de juros pode fazer.
GUERRA DE POSIÇÕES - O governo não quer ceder, mas o BC é independente e, como em qualquer lugar do mundo, sensível aos agentes do mercado. Preservando essa independência, a presidente Dilma Rousseff vai tratando de prosseguir dando boas notícias ao país a cada dia. Com dias em que dá até duas. Ontem, por exemplo, o governo divulgou que o programa Bolsa Família é um dos principais responsáveis pela queda de 17% na mortalidade infantil entre os brasileirinhos com zero a cinco anos de idade. Ao mesmo tempo, a Agência Nacional de Petróleo anunciou a antecipação da primeira licitação do pré-sal, oferecendo à iniciativa privada global, em regime de parceria com a Petrobras, um universo de exploração estimado em 42 bilhões de barris de petróleo. Será, em outubro, aguarda-se, o maior leilão de concessões do mundo, com recorde de arrecadação. Neste ponto, Dilma está seguindo estritamente a cartilha da oposição, buscando investidores e estimulando a formação de consórcios para atuar ao lado de uma empresa estatal – se bem que, a depender dos setores da oposição, essa empresa estatal, a Petrobras, já deveria ter sido vendida há muito.
As boas notícias da economia brasileira, cujo PIB, no primeiro trimestre, cresceu o dobro do japonês, e que, ainda, criou em abril mais empregos que a economia dos EUA, não são suficientes, porém, para unificar o debate entre economistas. Os que não suportam fórmulas não ortodoxas continuarão chiando, mesmo que estas alcancem resultados invejáveis. Ou talvez por isso mesmo. O problema é que, com o seu pessimismo, eles influenciam ânimos e, nessa medida, afetam resultados. Trata-se, assim, de uma verdadeira guerra de posições, com o povo no meio torcendo para o seguimento do que se dá hoje contra quem clama pela volta ao passado.

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