'Baile do Menino Deus' conta história do Natal com música e dança
Luna Markman
G1 PE
Um dos sons mais bonitos é o que sai da boca de uma pessoa quando ri. Ainda mais se for de uma criança, que solta sem preocupar-se com as regras de etiqueta. E esse barulhinho gostoso ecoou pelo Marco Zero, no Bairro do Recife, durante o "Auto do Menino Deus", na noite do domingo (23). O mais musical de todas as edições, onde até José e Maria cantaram, fez jovens e adultos entrarem nas brincadeiras populares, balançarem ao som do pastoril e refletirem até sem querer sobre a mensagem do Natal. A cantata cênica segue até terça-feira (25), sempre às 20h, com entrada gratuita.
No domingo, o Marco Zero parecia aquela rua da infância, onde todos se divertiam com joguinhos e palhaçadas. Quem comandava tudo eram os dois Mateus (Arilson Lopes e Sóstenes Vidal), que procuravam uma casa para fazer uma festa em celebração ao nascimento de um menino que acabara de nascer. Depois de muita busca, deparam-se com uma porta mistoriosa e fazem de tudo para abrí-la, atiçando a curiosidade do público, afim de saber o que tem por trás dela.
Dava para ouvir os apelos da pequena Maria Eduarda Siquei, 2 anos, que foi ao Marco Zero com os pais Poliana Siqueira e Henrique Paiva, além do irmão Pedro Henrique, 7 anos. Duda pedia para as portas se abrirem, ria com os movimentos dos Mateus, batia palma nas músicas. "Tem um cavalo [atrás da porta]", chutou a menina. A mãe riu porque já conhece a história. "Eu vim há três anos e agora trouxe ela, que está vendo uma peça de teatro pela primeira vez. E assim é ótimo, ao ar livre, com muita gente", disse.
Quando a porta finalmente se abriu, apareceu uma família: o pai José, a mãe Maria e o filho Jesus. Aplausos de felicidade, o baile pode começar. "O espetáculo brinca o tempo todo com esse mito do homem diante da porta, misturando o sagrado com o profano. E quando ela se abre, lembra ao público porque eles estão ali, para celebrar o nascimento do menino Jesus", explicou o diretor Ronaldo Correia de Brito.
É assim que, desde 1983, o "Baile do Menino Deus" retoma os tradicionais autos religiosos que chegaram ao Brasil com os colonizadores portugueses. O espetáculo tem concepção e direção geral de Ronaldo Correia de Brito e música de Antonio Madureira. O texto e as letras são uma parceria de Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima.
Há oito anos ele é encenado no Marco Zero do Recife, sempre buscando evoluir. Este ano, ganhou novas cenas, como a entrada de um mestre rabequeiro, interpretado pelo violonista Otávio Guerra, comandando uma procissão. A linguagem e os textos também ganharam novos ingredientes. As crianças do coro partipam mais. O figurino foi praticamente todo trocado, ganhando mais retalhos e referências do pastoril. O cenário continuou o mesmo.
Mais música
Mas a mudança mais notável foi a introdução de três músicas, todas de domínio público do pastoril, totalizando 22. José e Maria, vividos pelos atores Zé Barbosa e Isadora Melo, cantaram duas canções tipo de ninar bebê, "Beija flor e a borboleta" e "Acalanto". "Acho que assim ficamos mais integrados ao espetáculo, que segue nesse caminho, de unir dança, música e dramaturgia", comentou Isadora, que estreou nos palcos como atriz. Há três anos, ela fazia parte do coral e era solista do "Acalanto".
O pernambucano Zé Barbosa já atua há tempos e cantar nos palcos também não é novidade. Ele lidera a banda Conjunto Bola 8. "A gente mistura o retrô com elementos modernos. A ideia é lançar um disco no próximo ano", disse. "Esse papel foi um presente de Ronaldo para mim, que já tenho uma aproximação com essas manifestações populares, pois sou do interior, nasci em Limoeiro [Agreste do estado], além do que essas músicas me encantam muito", complementou. O ator até brincou que, em 2013, Jesus vai sair "a cara" do pai, já que ele está confirmado para viver pela segunda vez o personagem principal da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém.
A ópera de rua ainda contou com os solistas Surama Ramos, Silvério Pessoa, Virgínia Cavalcanti. Também participam outros personagens, como a burrinha Zabelim, o Anjo Bom, o Sol, a Lua, a Estrela e o monstro Jaraguá. Mesmo edicado ao público infantil, o espetáculo sempre consegue alcançar pessoas de todas as idades. "Parece que a gente volta a ser criança, deixa se levar pela magia da coisa. É tudo muito colorido, animado, família, a cara mesmo do Natal", comentou a psicóloga Maria Cristina Santos, que levou a filha Cecília, 6 anos. Então, vida longa ao espetáculo, que completará 30 anos em 2013.

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