Avesso à Imprensa, Jomard Muniz de Britto Rejeita a Mercantilização de Si Mesmo


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O poeta e cineasta, com mais de trinta experimentações audiovisuais no currículo, vive sozinho no quarto andar de um apartamento no Centro do Recife
Foto: Pedro Paz/Especial para o NE10

Pedro Paz
Especial para o NE10
No caminho inverso de intelectuais que flertam de maneira recomendável com o sistema midiático e de “networking” contemporâneo, o pernambucano Jomard Muniz de Britto, 75 anos, parece rejeitar a ideia de mercantilização de si mesmo – ou “egolombrismo”, como define.  Talvez por isso não telefone para jornalistas a fim de divulgar sua participação num seminário de literatura. Talvez por isso não dê um beijinho cordial naqueles que dominam as esferas de poder político e econômico, quando os encontra no cotidiano. 

Conversar com uma persona como ele, na posição de jornalista, é, no mínimo, constrangedor. Suas análises negativas sobre o trabalho dos críticos culturais, por exemplo, são atávicas. Prova disso é este trecho do II Manifesto Tropicalista, publicado originalmente em exposição individual de Raúl Córdula, na Oficina 154, na cidade de Olinda, em 1968: "Quando terminarão a erudição, a desatualização e o impressionismo gagá de nossos suplementos literários? Por que os nossos críticos em geral não saem de seus castelos para debaterem publicamente suas ideias?."

Por mais que se concorde com seus posicionamentos a respeito do método e fugacidade do fazer jornalístico nos tempos atuais, é preciso ter desprendimento para não cair na armadilha de se sentir carregando uma cruz. A ausência de disponibilidade para gastar seu tempo numa entrevista pode ser resumida no sutil disparate: “Quando aquela porta bater, a entrevista termina”. Estávamos sentados na sala de estar. Constantemente, uma ventania se instalava no local por meio da varanda. Por causa disso, a porta principal do apartamento oscilava de forma inquieta. De todo modo, convenhamos: o encontro foi desmarcado uma ou duas vezes. O repórter chega atrasado por um motivo banal. Ele não teria esse direito?!

Quando aquela porta bater, a entrevista termina
Logo após minha tentativa de dar início ao diálogo, Jormard pontua: “Meu querido, você devia ter ido ao Google antes de me entrevistar. Faça perguntas novas, que você não saiba ou que você queira saber”. Retruco explicando que preciso confirmar algumas informações; que as questões primeiras são uma tentativa de criar uma intimidade possível. Ele responde: “Então vamos ver se eu melhoro meu humor. Porque eu estou mal humorado. Eu deveria estar fazendo minha sesta neste momento”, reclama.

O poeta e cineasta, com mais de trinta experimentações audiovisuais no currículo, vive sozinho no quarto andar de um apartamento no Centro do Recife. Vestígios de suas memórias estão espalhados por toda parte. A quantidade de portas entreabertas no corredor principal de seu lar sugere que há mais de um indivíduo habitando o espaço. “Estou sozinho em casa. Moro sozinho há muito tempo, desde que meus pais, a pernambucana Maria Celeste Amorim Silva e o paraibano José Muniz de Britto, morreram. Não gosto de cultivar familiarismo. Os políticos é que gostam”, provoca.

Jomard acorda sempre de manhã cedo, por volta das seis e meia. Sua rotinha preferencial é tomar café da manhã e assistir a programas jornalísticos na TV. Em seguida, caminha pelas ruas do Recife. Atualmente, seu local de caminhada é o Parque Treze de Maio. Vai a pé até lá. O percurso dura treze minutos. Quando está atrasado, pega um táxi. Depois do exercício, faz outras atividades no centro da cidade, como ir ao banco ou aos Correios. “Gosto muito de pensar caminhando. Tenho uma dinâmica no pensar pensante”, revela seu processo criativo.

Nos dias atuais, escreve para o projeto “Atentados poéticos”.  Originalmente, são poemas que nasceram de uma proposta editorial. Mas a produção teve continuidade. No conteúdo deles, geralmente há críticas a fatos do dia a dia, que se remetem a formação política, econômica e cultural brasileira. A última publicação versa sobre a antropoemia, assunto discutido em seminário de literatura do qual participou em setembro, no Rio de Janeiro. “Antropoemia é o contrário da antropofagia, que todos já conhecem. É o vômito. No livro “Tristes trópicos”, Claude Lévi-Strauss já dizia que existem dois tipos de civilizações: a antropofágica e a antropoêmica. 

Transpartidário, Jormard asserta que não é filiado a partido algum. Mas não deixa de opinar sobre a política no Recife. “Acho que o prefeito João da Costa foi muito bem demonizado pela imprensa local durante seu mandato. Sobre o último processo eleitoral do município, gosto do que o governador de Pernambuco Eduardo Campos disse: Recife não é quintal de São Paulo”. Acerca das instituições mais repressoras no mundo ocidental, o intelectual considera que as religiões são as mais castradoras do alheio. “Impressiona-me o fanatismo de comerciantes evangélicos que encontro na rua. Eles acreditam na máxima que diz que "Quando Deus quer é assim”. Isso é uma barbaridade."

Para Jomard, hoje, o ópio do povo é o esporte, como afirma um pensador inglês do qual esquece o nome. “Tufão, personagem da novela Avenida Brasil, é exemplo disso. Por sinal, acho ótima a desagregação da família no folhetim. Todo mundo transa com todo mundo. Cadê a moral? A novela se encaixa no conceito do hipertropicalismo”.  Pelo visto, o endeusamento das tradições já não é mais a problemática maior a ser discutida no contemporâneo por ele.

Apesar de ter feito dezenas de filmes em super 8, seu nome é pouco citado em aulas de cinema brasileiro, por exemplo, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele ratifica ironicamente. “Eu não sou uma pessoa para ser citada. Isso não me preocupa. O que me preocupa é ter saúde e o mínimo de paciência para conviver com as pessoas. Mas, agora, já estão se preocupando. Tem gente estudando “Palhaço degolado” aqui e no Piauí.

No cinema pernambucano, tem admiração por diretores da nova geração, como Gabriel Mascaro, autor de “Um lugar ao sol” e “Avenida Brasília Formosa”. Já Cláudio de Assis o apavora. “A esquizofrenia dele bate com a minha. Você é um psicólogo profundo. Encontrar semelhanças entre mim e ele mostra que és a pessoa mais indicada para fazer esse perfil. Certamente, seus professores discordariam dessa afirmativa”, ironiza mais uma vez.

Jomard Muniz de Britto formou-se em filosofia pela Universidade do Recife, hoje UFPE, e iniciou carreira profissional como professor em cursos secundários. Aos 27 anos de idade, foi aposentado pelo golpe militar de 1964. Contudo, conseguiu se manter professor da UFPB até o AI-5. Realizador de filmes em super-8 e de performances, participou intensamente da movimentação tropicalista no Nordeste nos anos 70. Depois da anistia, em 1980, retornou às universidades. Ele é autor do projeto intermídia “Tempos & Espaços dos Abismos” e também escreveu 10 livros, entre eles “Contradições do Homem Brasileiro” (Edições Tempo Brasileiro) e “Do Modernismo à Bossa Nova” (Ed. Civilização Brasileira).

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