Nelson Rodrigues – 100 anos

Este ano, o jornalista, dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues faria cem anos se ainda estivesse entre nós, pois faleceu em 1980, aos 68 anos de idade. Nascido no Recife, em 1916 emigrou para o Rio de Janeiro, com vários irmãos e a mãe, por causa de perseguições políticas que visavam o pai, Mário Rodrigues, jornalista e político, cuja temperamento polêmico e combatividade atraíam amigos e inimigos.

É muito difícil definir neste espaço as múltiplas facetas da sua personalidade, em que se misturavam inteligência, talento, criatividade, refinada ironia, uma certa volúpia pela tragédia humana, que eram frequentes nas suas crônicas, peças teatrais e escritos ficcionais, embora todo aquele conjunto tivesse origens reais nos seus primeiros anos vividos em um subúrbio do Rio de Janeiro, onde os dramas familiares aconteciam com frequência na rua onde residiu, os quais nunca esqueceu.

É possível, porém, definir na sua trajetória um momento significativo, materializado com a encenação da peça de sua autoria, “Vestido de Noiva”, um marco definitivo da história do teatro brasileiro. Muitos o qualificam de o “fundador” da dramaturgia nacional, tal o impacto que a peça provocou pelo ineditismo de sua montagem. Não devem ser esquecidos, também, os filmes baseados em suas obras teatrais. 

Considerado por muitos num país ainda intelectualmente atrasado e conservador nos seus hábitos, Nelson Rodrigues era visto por muitos como um autor maldito e pornográfico, fama que o seguiu durante anos, sem que jamais fosse apagada, devido ao conteúdo das suas peças e da crônica diária “A vida como ela é”.

Politicamente, não nutria a menor simpatia pelas ideias esquerdistas. Pelo contrário, era definido como ultra reacionário, chegando a partilhar de algum convívio com militares importantes, a exemplo do então presidente Emílio Garrastazu Médici, com quem assistiu da tribuna de honra do Maracanã um clássico futebolístico.

Mas não admitia a tortura, além de ter sido testemunha de defesa de alguns amigos esquerdistas. Entretanto, o destino, na sua saga dostoiewskaniana, reservou-lhe a prisão política de um filho, vítima das violências físicas que tanto condenava. 

Apaixonado torcedor do Fluminense, enxergava mal, mas escrevia na edição do dia seguinte sobre o jogo sua crônica, dizem, com o auxílio de um amigo que o acompanhava aos estádios, o qual, ao final do jogo, ouvia a seguinte pergunta de Rodrigues: “Fulano, o que nós achamos desta partida?”, reza o folclore em torno do cronista esportivo, querendo informações precisas para o que viria a escrever à noite, na redação, devido à deficiência visual de que era portador.

Adepto de paixões femininas incendiárias, as teve muitas, chegando até à separação conjugal, embora terminando os seus dias em paz com a esposa. Dele há centenas de frases, algumas geniais, no sentido estrito do significado da palavra. Vale apena citar algumas, tais como: “Toda unanimidade é burra!”; “A fidelidade conjugal (para os homens) deveria ser uma virtude facultativa”; “Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”; “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”; “Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que paisagem lunar. O repórter mente pouco, mente cada vez menos”; “As grandes convivências estão a um milímetro do tédio”; “Daqui a 200 anos, os historiadores vão chamar este final de século (XX) de a mais cínica das épocas. O cinismo escorre por todas as partes, como a água das paredes infiltradas”. 

Este é um resumo despretensioso sobre alguém cuja atividade teatral, literária e esportiva transcendeu seus contemporâneos, inscrevendo-se, definitivamente na posteridade. 


FOLHA-PE

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