Da tradição à renovação: a trajetória da Filosofia na UFPE

O curso se consolidou como referência no Nordeste, ampliou sua produção acadêmica e passou a ocupar posição de destaque no cenário nacional

Por Allane Silveira

A história do curso de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) acompanha a própria formação da instituição e o desenvolvimento das Ciências Humanas em Pernambuco. Sua trajetória remonta à antiga Faculdade de Filosofia de Pernambuco (Fafipe), criada em 1948 com a missão de formar professores para o ensino secundário, e também dialoga com a história da Faculdade de Filosofia do Recife (Fafire), fundada em 1940 pelas Irmãs Doroteias. A Fafipe iniciou suas atividades oferecendo os cursos de Filosofia, História, Geografia, Letras, Pedagogia, Psicologia e Ciências Sociais. Em 25 de maio de 1950, foi incorporada à então Universidade do Recife (UR), criada em 1946 e federalizada naquele mesmo ano. Mais tarde, a instituição passaria a se chamar Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Com a Reforma Universitária, implantada entre as décadas de 1960 e 1970, a antiga Faculdade de Filosofia foi reorganizada em departamentos e integrada ao Instituto de Ciências do Homem. Em 1974, essa estrutura deu origem ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), que reúne departamentos como Filosofia, História, Psicologia, Sociologia, Ciência Política, Antropologia, Arqueologia e Geografia. Atualmente, o Departamento de Filosofia integra o CFCH e oferece cursos de graduação, mestrado e doutorado. Além da formação de professores e pesquisadores, desenvolve estudos em áreas como ética, filosofia política, lógica, metafísica, história da filosofia e, mais recentemente, filosofia africana, pensamento decolonial e estudos sobre raça e gênero.

Para o professor Fernando Nascimento, que também atua como Chefe de Gabinete da Reitoria, a relevância do curso está diretamente ligada à sua tradição e ao pioneirismo na formação de pesquisadores no Nordeste. “O curso de Filosofia da UFPE encontra sua importância por vários aspectos: primeiro, por ter uma história antiga, que remonta aos anos 1950, e por ser pioneiro na pós-graduação na região Nordeste, iniciando seu curso de mestrado nos anos 1970. Além disso, é herdeiro indireto da corrente filosófica brasileira do século XIX conhecida como Escola do Recife, fundada na Faculdade de Direito do Recife, que introduziu no Brasil o neokantismo e o positivismo de viés germânico”, explica.

Essa herança intelectual também se manifesta em episódios marcantes da história do curso. Fernando recorda que, nas décadas de 1950 e 1960, estudantes de Filosofia tinham a oportunidade de assistir às aulas de Estética ministradas por Ariano Suassuna, cuja atuação como professor deixou marcas na formação de diversas gerações. Segundo o docente, o curso sempre procurou aliar excelência acadêmica ao compromisso com uma reflexão crítica sobre a sociedade. “O curso de Filosofia da UFPE reúne rigor filosófico e crítica ao produtivismo, ao tecnicismo e ao cientificismo que desvirtuam o pensamento acadêmico, transformando-o em instrumento de manutenção do status quo. Hoje, destaca-se também por sua crítica ao eurocentrismo filosófico por meio dos estudos pós e decoloniais, formando bacharéis e educadores preparados para compreender e transformar a realidade”, pontua.

O professor ressalta ainda o reconhecimento conquistado pelo departamento nas últimas décadas. “O curso destaca-se por contar com docentes e egressos de reconhecimento nacional e por ter organizado, sob a coordenação do professor Érico Andrade, o Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), o maior evento da área no país”, relembra Fernando.

Para ele, a história do curso também se confunde com sua própria trajetória acadêmica. “Ter sido aluno de mestrado e doutorado e hoje ser docente do curso de Filosofia da UFPE é motivo de muito orgulho. O curso reúne professores de reconhecimento nacional e inserção internacional, sem perder sua identidade local e o compromisso com a formação de docentes para a educação básica e o ensino superior”, destaca. Fernando também ressalta a participação ativa de professores do departamento na gestão universitária, citando nomes como Washington Martins, que ocupou diversos cargos administrativos e foi pró-reitor da UFPE, Junot Matos, atual diretor da Editora UFPE, e sua própria atuação como ex-pró-reitor e atual Chefe de Gabinete da Reitoria.

Renovação e protagonismo – Professor do Departamento de Filosofia e ex-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof), Érico Andrade testemunhou de perto as mudanças pelas quais o curso passou nas últimas décadas. Aluno da graduação desde 1998, ele lembra que encontrou um departamento bastante diferente do atual. “O corpo docente era formado, em sua maioria, por professores descendentes diretamente de europeus, havia um professor espanhol, um português, um polonês e apenas três professoras. O curso era muito centrado na História da Filosofia, na filosofia europeia branca e a produção acadêmica daqui tinha pouca repercussão nacional.”

Segundo Érico, esse cenário começou a mudar com a renovação do quadro docente e a ampliação das agendas de pesquisa. “Hoje temos professores com bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pesquisadores cuja produção circula nacionalmente. Houve uma abertura extraordinária para as questões raciais e para os estudos afro-indígenas. Recentemente realizamos um concurso para essa área. O departamento acompanha um movimento nacional de renovação da filosofia”, destaca.

Na avaliação do professor, um dos momentos que simbolizam essa transformação também foi a realização, no Recife, do Encontro Nacional da Anpof, em 2024, durante sua gestão à frente da entidade. “Foi a primeira vez que o encontro aconteceu no Recife. Realizamos o maior evento da história da filosofia brasileira, mostrando que saímos de uma posição periférica para ocupar um lugar de protagonismo na produção filosófica nacional”, relembra.

Ao longo de mais de sete décadas, o curso de Filosofia da UFPE consolidou uma trajetória marcada pelo diálogo entre tradição e inovação. Mantendo viva a herança intelectual da Escola do Recife, mas atento aos debates contemporâneos, o departamento segue formando pesquisadores, professores e profissionais comprometidos com a produção de conhecimento crítico e com a transformação da sociedade.

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