A Odontologia na UFPE: uma história contada pela perspectiva de quem a construiu
Fundada em 1913, a instituição acompanhou a evolução do ensino odontológico em Pernambuco
Por Allane Silveira
A história da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ultrapassa um século e acompanha a própria consolidação do ensino superior no estado. Sua origem remonta à Escola de Odontologia de Pernambuco, fundada em janeiro de 1913 por iniciativa de integrantes da Sociedade de Medicina de Pernambuco, em um período em que a formação universitária ainda dava seus primeiros passos no Brasil. Poucos anos depois, a escola foi incorporada à Escola de Farmácia e, em 1925, ambas passaram a integrar a Faculdade de Medicina do Recife. Somente em 1958, a Odontologia conquistou autonomia administrativa ao tornar-se a Faculdade de Odontologia da então Universidade do Recife, instituição que, em 1965, passou a se chamar Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Ao longo dessa trajetória centenária, a instituição recebeu diferentes denominações, refletindo as mudanças na organização do ensino superior brasileiro: Escola de Odontologia de Pernambuco (1913), Escola de Odontologia do Recife, Escola de Farmácia e Odontologia do Recife (1922), Faculdade de Medicina, Farmácia e Odontologia do Recife (1927), Faculdade de Odontologia da Universidade do Recife (1958) e, posteriormente, Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco (1965).
A história do curso também é marcada pelas sucessivas mudanças de sede. As aulas funcionaram, em diferentes períodos, no Ginásio Pernambucano, na Escola Politécnica, localizada no Largo do Hospício, na Avenida do Riachuelo e no bairro do Derby. Foi neste último endereço que a faculdade enfrentou uma das situações mais marcantes de sua história: a grande enchente da década de 1970, que comprometeu suas instalações e acelerou a transferência para a Cidade Universitária.
No Campus Recife, o curso passou inicialmente a funcionar no prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH). Posteriormente, foi instalado no Hospital das Clínicas (HC), onde permaneceu durante parte de seu processo de expansão, até ocupar as atuais instalações, que concentram atividades de ensino, pesquisa, extensão e atendimento à população.
Para o professor José Thadeu Pinheiro, a criação da Escola de Odontologia representou um esforço coletivo de diferentes segmentos da sociedade pernambucana. Ele explica que, além de cirurgiões-dentistas e médicos, participaram da iniciativa bacharéis em Direito e Letras, o que evidencia o caráter interdisciplinar do projeto de criação da instituição.
Outro aspecto que o professor destaca é a presença feminina desde os primeiros anos do curso. “Uma observação a ser feita é que, entre os 25 primeiros matriculados, já constava a participação feminina, um fato histórico marcante”, afirma. Em uma época em que o acesso das mulheres ao ensino superior, especialmente nas áreas da saúde, ainda era bastante restrito, essa participação simbolizou um avanço importante. “Com a continuidade dos anos, esta instituição foi se tornando um marco referencial para a Odontologia em Pernambuco, tendo grande repercussão no estado”, acrescenta.
TRANSFORMAÇÃO – A formação em Odontologia também passou por profundas transformações ao longo do tempo. O curso, que inicialmente tinha duração de dois anos, foi ampliado para três e, posteriormente, quatro anos, até chegar ao modelo atual de cinco anos, acompanhando a evolução das exigências acadêmicas e profissionais da área.
Entre os marcos mais recentes apontados por José Thadeu está a criação do curso noturno. Segundo ele, a iniciativa tornou a UFPE a única instituição pública de ensino superior em Pernambuco a oferecer graduação em Odontologia nesse turno. “Foi uma iniciativa dos componentes do curso que trouxe uma contribuição muito grande para a sociedade pernambucana”, destaca. Para o professor, a oferta noturna amplia o acesso ao ensino público de qualidade, permitindo que trabalhadores possam conciliar a rotina profissional com a formação universitária.
GERAÇÕES – A trajetória da professora Sara Grinfeld se confunde com a própria história da faculdade. Filha do professor Love Grinfeld, que lecionou no curso entre o final da década de 1950 e os anos 1980, ela representa uma família cuja ligação com a Odontologia atravessa gerações e até continentes. “Vivemos da Odontologia. Minha avó era protética na cidade de Lódz, na Polônia. Com a Segunda Guerra Mundial, meus avós se casaram e vieram para o Brasil para escapar dos campos de concentração. Somos de religião judaica. Depois de mim, uma sobrinha também fez Odontologia na UFPE”, relata.
Graduada pela instituição entre 1974 e 1978 e professora de 1980 a 2016, Sara acompanhou importantes mudanças estruturais e acadêmicas. Sua turma ainda iniciou o curso nas antigas instalações do Derby. “Minha turma ainda teve como sede o prédio localizado no Derby. Depois veio a enchente e o curso foi transferido para o Centro de Filosofia e Ciências Humanas, na Cidade Universitária. Quando nos formamos, a faculdade já havia migrado para o Hospital das Clínicas”, recorda.
Seu pai também viveu parte dessa história, tendo estudado na época em que a faculdade ainda funcionava no Derby. Como docente, Sara atuou na Clínica de Odontopediatria I e II, exerceu a coordenação do curso e desenvolveu atividades de ensino, pesquisa e extensão, contribuindo para a formação de diversas gerações de cirurgiões-dentistas.
LEGADO – Mais de cem anos após sua criação, o curso de Odontologia da UFPE se consolidou como uma das principais referências na formação de profissionais e na produção de conhecimento na área no Nordeste. Sua história é marcada não apenas pela evolução de sua estrutura física e curricular, mas, sobretudo, pelas trajetórias de professores, estudantes e servidores que ajudaram a construir uma instituição comprometida com a excelência acadêmica, a pesquisa científica, a extensão universitária e a prestação de serviços à sociedade pernambucana.
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