A Escola de Belas Artes e seu legado para a cultura pernambucana

Pela Escola de Belas Artes passaram nomes como Paulo Freire, Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna e Murillo La Greca, entre outros

Por Eugênia Bezerra

Em entrevista ao Jornal da Manhã, o artista Baltazar da Câmara defendeu que a Escola de Belas Artes de Pernambuco não era somente uma necessidade para atender às vocações artísticas dos pernambucanos: “é, tambem, uma necessidade em geral, como uma das bases primordiais ao progresso de Pernambuco, reflectindo, de algum modo, em todo o paiz, porque não se compreende o progresso em geral de um povo sem a cultura das artes e das sciencias (sic)”. A conversa publicada pelo periódico na edição do dia 7 de abril de 1932 permite ter uma ideia da mobilização que havia entre pessoas da época (nem todas artistas) para que fosse criada a instituição. Fruto disso, ela foi inaugurada no dia 20 de agosto de 1932, na casa de número 150 da Rua Benfica, no bairro da Madalena, e lá funcionou até as aulas serem transferidas para o Centro de Artes e Comunicação (CAC).

Isso porque a Escola de Belas Artes de Pernambuco é uma das sete instituições de ensino superior que foram reunidas em agosto de 1946 para a criação da Universidade do Recife (UR), que passou a ser chamada de Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1967 – as outras seis foram a Faculdade de Direito do Recife (fundada em 1827), a Escola de Engenharia de Pernambuco (1895), a Escola de Farmácia (1903), a Escola de Odontologia (1913), a Faculdade de Medicina do Recife (1915) e a Faculdade de Filosofia do Recife (1940).

A professora de Artes Visuais do Colégio de Aplicação Niedja Santos pesquisou sobre a fundação e os primeiros anos de atividade da Escola. Ela comenta sobre o cenário cultural da época e as mobilizações dos artistas para a criação da instituição na dissertação “O Ensino do Desenho na Escola de Belas Artes de Pernambuco (1932 a 1946)”. O trabalho construído pela professora no Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais UFPE-UFPB está disponível no repositório digital Attena e traz outras reproduções de fotografias além das que são publicadas neste texto.

Niedja Santos afirma que a Escola de Belas Artes de Pernambuco foi concebida nos moldes da Escola Nacional de Belas Artes (fundada no Rio de Janeiro em 1816), “que vem de uma tradição artística e histórica que remontam a vinda da corte portuguesa ao Brasil. Logo, esta escola, de moldes europeus, determinou a estrutura curricular do ensino da escola pernambucana”. “Apesar da distância das duas instituições, de quase um século, os documentos oficiais apresentam referências e orientações que regulamentam o ensino e a estrutura administrativa da escola pernambucana”, ressalta.

A professora Niedja Santos também transcreve um texto publicado pelo Jornal do Commercio em 1949, no qual Baltazar da Câmara cita nomes do grupo que participou junto com ele de reunião em prol da abertura da Escola no Recife. São lembradas pessoas como os artistas Bibiano Silva, Fedora Monteiro (Fedora do Rego Monteiro ou Fedora Fernandes Monteiro), Heinrich Moser, Mario Nunes e Murillo La Greca e o arquiteto Heitor Maia Filho.

“Vale frisar a presença da artista Fédora Fernandes Monteiro, única mulher a integrar este grupo iniciando uma ruptura com um modelo hegemônico, patriarcal e tradicionalista de acesso à arte. A Escola era um chamado aos jovens, na visão dos integrantes deste grupo, com vocação para as artes plásticas, que não tinham no Recife um centro regular de ensino com este propósito. La Greca defendeu a iniciativa em longa entrevista ao Diário da Manhã, dizendo que ‘a Escola não é um freio aos talentos ou tendências dos jovens: é apenas um meio de prepará-los, de iniciá-los na carreira artística, naquilo que ela tem de geral e imutável, que é, em suma, a expressão universal’”, pontua Niedja Santos em seu estudo sobre estes anos iniciais da Escola.

O Jornal Pequeno registrou em sua capa “o êxito das matrículas” do novo estabelecimento (na edição do dia 27 de junho de 1932), afirmando que “A grande iniciativa tem tido a mais carinhosa e efficiente acolhida em todas as classes sociaes”. O periódico também noticiou a realização dos primeiros exames de admissão (na edição do dia 21 de julho de 1932), dizendo que as provas foram muito concorridas, e a visita organizada para a imprensa conhecer a escola (na edição do dia 17 de agosto de 1932). Também trouxe um relato sobre a solenidade feita para a inauguração oficial da instituição de ensino (na edição do dia 22 de agosto de 1932).

Inicialmente, a Escola de Belas Artes de Pernambuco oferecia os cursos de Arquitetura, Escultura e Pintura. Anos depois, em 1958, os cursos de Música e Teatro (ou Arte Dramática) entraram nesta lista.

Os estudantes da época tinham aulas teóricas, de disciplinas como Estética ou História da Arte, e práticas, em espaços como os ateliês das disciplinas de Arquitetura Analítica, Artes Aplicadas ou Desenho de Modelo Vivo. Mas eles também aprendiam além dos muros da Escola. Há imagens de estudantes praticando a pintura de paisagem com seus cavaletes em espaços abertos, assim como registros de viagens de estudo a lugares como Olinda (Diario de Pernambuco, na edição do dia 29 de janeiro de 1933), Fernando de Noronha (Diario de Pernambuco, na edição do dia 12 de agosto de 1933) e Caruaru (Diario de Pernambuco, na edição do dia 24 de dezembro de 1936).

As criações dos alunos eram apresentadas ao público geral em exposições organizadas pela Escola de Artes de Pernambuco (mais tarde, viriam as apresentações musicais e teatrais). E há outras maneiras de ver as obras de ex-alunos e ex-professores da instituição, já que muitas hoje fazem parte de coleções de museus ou foram feitas para espaços públicos. Deste último grupo, é possível citar, por exemplo, o mural pintado pelo ex-professor Murillo La Greca no Memorial de Medicina.

“A Escola de Belas Artes é fundante do pensamento moderno em Pernambuco. Por ali passaram grandes nomes, Paulo Freire, Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna, Murillo La Greca e tantos outros”, afirmou o professor do Departamento de Artes Luís Reis, em entrevista para uma matéria exibida pela TVU em 2016.

Na época, o docente trabalhava como diretor de Cultura da então Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPE (em 2026, a estrutura é diferente, a Cultura conta com uma pró-reitoria específica). Luís Reis se tornou servidor da UFPE em 2009. Desde então, contribui para a formação de muitas pessoas que agora estão trabalhando nos palcos, coxias e em outras salas de aula, tendo lecionado em disciplinas como História da Arte, Fundamentos da Linguagem Teatral e Estética.

A ligação profissional dele com a UFPE, no entanto, começou alguns anos antes: foi nesta universidade que Luís cursou a Graduação em Comunicação Social / Jornalismo (1995-1999), o Mestrado em Comunicação Social (2001-2003) e o Doutorado em Letras (2004-2008). E existe ainda um componente de vida pessoal dele na história que será contada a seguir.

O primeiro contato de Luís Reis com o universo da Escola de Belas Artes ocorreu ainda na infância, acompanhando a mãe dele, a atriz e professora de teatro Lucide Veiga. “Mamãe já era formada em Educação Física e, em 1958, abriu o curso de Teatro na Escola de Belas Artes. Ela sempre quis ser atriz e, quando soube do curso, correu atrás, mas já tinham feito o vestibular para a primeira turma. Ela disse que voltaria no ano seguinte e, de fato, entrou na turma de 1959 e se formou em 1962. Este foi um dos primeiros bacharelados em Teatro do Brasil, tinha duas habilitações: a de dramaturgia e a de interpretação, para formação de ator. Ela fez o de interpretação. O corpo docente era estelar: Ariano Suassuna; Hermilo Borba Filho; Janice Lôbo; Maria José Campos Lima; Octávio Graça Mello, diretor carioca muito importante que estava aqui na época, Joel Pontes; Aloisio Magalhães; Alfredo de Oliveira; José Carlos Cavalcanti Borges; Milton Baccarelli; Isaac Gondim Filho; o argentino Tulio Carella, que teve uma passagem muito importante na cidade”, cita o professor da UFPE.

Assim como ocorreu com os primeiros cursos, a produção de professores e estudantes das artes cênicas também era noticiada pela imprensa na época. Há por exemplo uma fotografia de Lucide na edição da coluna Diario Artístico publicada no Diario de Pernambuco (no dia 22 de junho de 1960), em que era anunciada a apresentação que estudantes do 3º ano do Curso de Teatro da Universidade do Recife fariam como primeira prova parcial (prática e pública).

O grupo se preparava para encenar a comédia “O genro de muitas sogras”, de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, no Teatro de Santa Isabel, com direção de Isaac Gondim Filho. Lucide interpretou uma das sogras da história. Dois anos mais tarde, noticiava-se que o Teatro da Escola de Belas Artes (Teba) participaria do IV Festival Nacional de Teatros de Estudantes, em Porto Alegre, com esse mesmo espetáculo (na edição do dia 3 de janeiro de 1962).

“O curso de dramaturgia logo acabou, mas formou gente do nível de Osman Lins, uns dos maiores dramaturgos do Brasil. Uma coisa que nem todos sabem é que Lisbela e o Prisioneiro foi o trabalho de conclusão de curso dele. Quando veio o Golpe Militar (em 1964), os militares começaram a intervir ali. Acabaram o curso de teatro primeiro e, depois, com o departamento em si. Foi uma coisa terrível para o teatro do Nordeste. A Escola de Belas Artes foi muito cerceada no Golpe Militar. Os militares colocaram todas as artes em um único departamento, o de Teoria da Arte, acabaram com o bacharelado e instituíram licenciaturas. Até hoje, não conseguimos ter de volta um departamento só de teatro. O curso de teatro volta indiretamente em 1976 como Licenciatura em Educação Artística com Habilitação em Artes Cênicas. Depois, passou a ser a Licenciatura em Teatro e foi criada a Licenciatura em Dança”, detalha o professor Luís Reis.

Quando o curso de licenciatura com habilitação em artes cênicas foi inaugurado, Lucide, que já dava aulas de teatro como bacharela, fez parte da primeira turma. “Eu frequentei a Escola de Belas Artes neste primeiro ano. Era um garoto ainda e ia muito com ela. Com certeza, isso teve uma influência no que faço hoje. Ainda menino, vi Hermilo Borba Filho, Milton Baccarelli, Ariano Suassuna na sala de aula. Hoje, me emociono quando estou dando aula e me lembro de Ariano falando sobre aqueles assuntos, na aula de Estética, por exemplo. E o lugar era lindo, acolhedor, cheio de vida, apesar de o País estar em plena Ditadura Militar. Tinha uma área muito bonita para o rio, lembro que eu ficava lá brincando”, resgata Luís Reis.

Ele também lembra do período em que os cursos foram transferidos para o Centro de Artes e Comunicação (CAC): “No segundo ano (do curso para a turma de Lucide), as aulas quase todas foram no CAC. Mamãe teve uma carreira muito pioneira, foi uma das primeiras professoras de teatro em escolas na rede pública do Recife. Depois, ela prestou concurso para professora ser professora da antiga Escola Técnica, que hoje é o Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). Ela criou o núcleo de teatro de lá, que formou gerações da cena pernambucana”.

Luís Reis teve ainda outro tipo de contato com o legado e com os espaços da Escola de Belas Artes de Pernambuco por ter atuado como diretor de Cultura da UFPE de 2016 a 2019. Com isso, trabalhava diretamente com o Centro Cultural Benfica – localizado em frente à construção histórica onde funcionava a Escola e que passou a abrigar a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia (Facepe).

“Foi muito emocionante o reencontro com estes espaços. O Benfica foi um anexo da Escola, ali ficava o prédio de Música, alguma coisa de Escultura, de Artes visuais. Ali foram feitas montagens teatrais importantes que marcaram nossa história. É um espaço muito sagrado para a cultura, para a história das nossas artes em Pernambuco e no Brasil”, afirma Luís Reis.

Atualmente, o Centro Cultural Benfica é formado pelo Teatro Joaquim Cardozo, o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), a Sala Samico e as Galerias Baltazar da Câmara e Pequenos Formatos, conta com o Pátio e a Área Externa para atividades e guarda as obras de artes visuais do acervo da Escola de Belas Artes de Pernambuco. Assim, o espaço segue fazendo parte da vida cultural do estado, um lugar onde outras gerações têm criado novas histórias.

Série Especial – As escolas que deram origem à UFPEFaculdade de Direito do Recife celebra 199 anos de uma história feita por pessoas

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