Milton Nascimento faz espetáculo memorável em Pernambuco
Adriana Victor
JC online
Foi uma grande festa, um imenso salão, uma celebração coletiva com instantes repetidos de catarse que os que foram assistir à apresentação de Milton Nascimento, quinta-feira (24), puderam testemunhar. Que privilégio! A plateia que fez fila em caracol do lado de fora do Teatro Guararapes, localizado onde o Recife e Olinda quase se abraçam, lotou os mais de 2mil e 400 lugares.
Pouco depois das 21h, os músicos abrem o espetáculo, ainda sem o astro da noite, cantando “Travessia”. Minutos depois, caminhando devagar, chega Milton: “Já não sonho, hoje faço/com meu braço, meu viver”.
Desde o primeiro instante já ficou muito claro para quem ali estava: era um espetáculo para se cantar junto, luz na plateia muitas vezes, compartilhar foi palavra de ordem. Sentado durante quase todo o show, o que se viu foi um Milton solto, leve, conversador, generoso, algumas vezes questionador e, acima de tudo, companheiro de seu público – feliz, muito feliz.
“Tenha fé no nosso povo que ele resiste”, cantou em “Credo”, respondido por um teatro cheio de aplausos. Além da leveza da alma do cantor, o tom político também esteve presente durante toda a noite. Falou da luta dos índios Guarani Kaiowá e do nome de batismo que recebeu deles e repassou ao espetáculo, “Semente da Terra”; cantou o povo negro e sua luta permanente: “Guarda o toque do tambor/pra saudar tua beleza/na volta da razão/pele negra, quente e meiga” – ave que música, quase uma oração. A certa altura, declarou: “Viva as minorias!”. Foi respondido com muitos gritos de “Fora, Temer”, além das palmas.
Em “Coração de Estudante”, cantor, músicos e público harmonizaram um coro memorável. “É um prazer cantar nesta cidade onde já vivi tanta coisa e fiz grandes amigos. Vocês são demais”, disse Milton. E tome aplauso.
Nome por nome, citou cantores, artistas e compositores que têm importância em sua trajetória: Chico Buarque, Francis Hime, Caetano Veloso e tantos e tantos. Lembrou muito especialmente de Elis e de suas interpretações. Também deu nome a vários amigos do Recife que estavam na plateia. Mais que todos, louvou o músico, companheiro de vida artística e amigo Naná Vasconcelos, que se foi em 2016. “Uma das coisas mais incríveis que o Recife já me deu nesta vida foi Naná Vasconcelos”, declarou. “Meu Deus, meu Deus.”
Dois meses antes de completar 75 anos, sobre efemérides ligadas a sua carreira, disse que não via sentido em comemorar uma ou outra. “Está tudo aqui neste palco.” E, de fato, estava. Milton, completo, em entrega absoluta. Generoso, abriu muitas vezes o microfone para a voz limpa e bela da mineira Bárbara Barcellos. “Milton é meu Deus”, já declarou a cantora.
Foram 18 músicas cantadas – por Milton, por Bárbara e por nós todos que nos encantamos com o espetáculo. De quebra, três músicas no bis. Antes de ir embora, ainda chamou ao palco o personagem Bita, protagonista de animação Mundo Bita, criada em Pernambuco, que fez parceria com o artista.
Mas era, mais que tudo, a música que ecoava na alma de quem lá estava. Música que não se descarta, que permanece e revive a cada novo canto. Teatro de pé, em louvação. Que noite! Obrigada, Milton.

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