O mote da mudança irá soprar pra que lado?

*Ricardo Andrade

Pesquisas eleitorais refletem um momento, são como se costuma dizer, um retrato da realidade. Mas que tipo de lente está sendo utilizada nessa fotografia? Uma câmera antiga, um equipamento analógico ou a precisão de um aparelho moderno? A depender do enquadramento, a leitura pode variar.

Embora o prefeito do Recife, João Campos, apresente elevados índices de aprovação e reconhecimento, inclusive com premiações internacionais, é inegável que gestões anteriores do PSB no estado deixaram lacunas significativas, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura e à governança. Um único dia de chuvas mais intensas foi suficiente para expor fragilidades estruturais na capital, evidenciadas, por exemplo, nos recorrentes problemas da Avenida Recife.

Por outro lado, a governadora Raquel Lyra também enfrenta pontos vulneráveis em sua administração. Governar um estado inteiro impõe desafios mais amplos, seja pela dimensão territorial, seja pela necessidade de políticas públicas mais abrangentes. Ainda assim, a gestora mantém índices positivos de avaliação, com destaque para entregas no Agreste, sua principal base política, e no Sertão.

A narrativa de “boa gestora” e a construção simbólica em torno da identidade pernambucana são elementos centrais da estratégia de Raquel Lyra. A questão que se impõe é até que ponto esse discurso encontrará ressonância no eleitorado.

A eventual nacionalização da disputa em Pernambuco e no Nordeste, por si só, não deve ser determinante. O apoio do presidente Lula tem peso político relevante, mas não garante, isoladamente, o desfecho da eleição.

O conceito de “mudança” tende a ser o eixo central da disputa. João Campos deve apostar em uma ideia de renovação ancorada em seu legado político e em ações implementadas no Recife, buscando se posicionar como representante do novo. Já Raquel Lyra deverá sustentar um discurso que combina mudança e continuidade, ressaltando sua condição de primeira mulher a governar Pernambuco e enfatizando realizações de sua gestão.

Como essas narrativas serão assimiladas pelo eleitorado — dialogando com expectativas, demandas e projetos de vida — será decisivo em uma disputa que se desenha equilibrada e, ao mesmo tempo, imprevisível, apesar de, em determinado momento, ter parecido definida antes mesmo de começar.

*Historiador e Cientista Político

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