Os vencedores



Por Marcelo Tognozzi

Colunista do Poder360

Os maiores vencedores desta eleição são jovens, mineiros, nasceram pobres, venceram pelo próprio talento e se tornaram símbolo da nova política. Nikolas Ferreira, 30 anos, nasceu na favela Pai Tomaz, em Belo Horizonte. André Janones, 42 anos, é de Ituiutaba, no Pontal do Triângulo Mineiro, com pai cadeirante e mãe empregada doméstica. Seu primeiro emprego foi como cobrador de ônibus. Brilharam neste 2º turno, dando aula de comunicação eficiente. Algo raro e bonito de se ver.

Colocaram em prática as lições de Claude Shannon (sim, a IA da Anthropic se chama Claude por causa dele), que há quase 80 anos publicou sua Teoria Matemática da Comunicação. Shannon (1916-2001), iria se deliciar vendo Nikolas trabalhar para Flávio Bolsonaro e Janones para Lula.

O que eles fizeram neste 2º turno não foi improviso, mas a aplicação, consciente ou intuitivamente, da tese deste engenheiro norte-americano do MIT que nunca fez política, muito menos pisou num palanque, e tudo o que queria saber era como fazer a mensagem ir de um ponto a outro sem se perder no caminho. Nikolas e Janones souberam fazer isso.

A Teoria Matemática da Comunicação de Shannon tem três ideias simples: 1) informação é surpresa. A mensagem vale mais quanto menos previsível for, porque o que todos já esperam nada informa; 2) todo canal tem ruído e ruído destrói mensagens; 3) vencer o ruído falando com muita clareza, produzindo redundância capaz de fazer a mensagem sobreviver mesmo se parte dela se perder. Surpresa para capturar a atenção, redundância para resistir ao ruído. Cada deputado dominou uma metade dessa equação.

Nikolas Ferreira é produtor de surpresas em escala industrial. Seu vídeo “O Nordeste que foi esquecido“, publicado em 20 de outubro, passou de 100 milhões de visualizações em 8 horas. “Nikolas não precisa impulsionar. Sua audiência é tão grande que o próprio algoritmo do Instagram se encarrega de dar relevância aos seus conteúdos”, explica o cientista de dados Alek Maracajá da Ativaweb.

O segredo está no improvável. O jovem bolsonarista mineiro ouvindo eleitores baianos num reduto lulista é exatamente o tipo de mensagem que ninguém espera, e, por isso, carrega muita informação, exatamente como observou Shannon lá nos idos de 1948. O formato também surpreende pelo enfoque humano: pessoas falando da sua própria realidade, do tempo que passou e a vida não mudou.

Nikolas sofisticou ao transformar ruído em sinal. Quando o áudio do vídeo foi cortado por questões de direitos autorais, ele converteu o silêncio em mensagem. O mote “não calem os nordestinos” bateu recordes entre os assuntos mais comentados na internet. O piá soube fazer do limão uma limonada.

Se Nikolas é a surpresa, André Janones é o canal. Seu “Exército do Lula“, criado no WhatsApp em 5 de outubro, 24 horas depois do 1º turno, tem mais de 10 milhões de seguidores, muito maior que a “Tropa do Flávio” montada por Nikolas. Janones não precisa de mensagens brilhantes. Quer eficiência, fazendo com que as mensagens sejam repetidas por milhões de pessoas, em milhões de grupos, chegando ao destino no melhor estilo empacota e manda.

É o que Shannon chamou de redundância aplicada. A mesma ordem, “compartilhem“, replicada em cascata, faz a mensagem sobreviver às perdas pelo caminho. A grande vantagem estratégica é a mensagem partir de um canal fechado, tanto que a campanha de Flávio admitiu não conseguir controlar o que circulava no Exército do Lula.

A prova de robustez e resiliência do canal de Janones veio do forte ruído provocado pela Justiça Eleitoral. O “Exército” foi suspenso, restabelecido e suspenso novamente em poucos dias. Voltou a operar normalmente em 14 de outubro, com Janones comemorando a chegada de novos milhões de seguidores. Nem o piripaque provocado pelo estresse e a internação de Janones na UTI, depois do debate da Band, fez a máquina perder tração.

Qualquer que seja o vencedor da eleição, Flávio ou Lula, o certo é que Nikolas e Janones sairão maiores do que entraram. De acordo com Alek Maracajá, o engajamento de Nikolas cresceu mais de 514% depois do 1º turno, e o de Janones, quase 272%. No ecossistema evangélico, Nikolas somou 50,7 milhões de interações, mais do que o próprio Flávio. Janones concentrou quase metade das interações de todo o campo governista.

Nikolas foi o rosto da campanha de Flávio nas ruas e nas telas, levando os “bloquinhos” de Minas para o Nordeste. Janones, que mal apareceu no 1º turno, virou o sistema nervoso da militância lulista. Se Janones tivesse criado seu “exército” no 1º turno, certamente não teria só 78.780 votos, mas rivalizaria com os mais de 3 milhões de Nikolas.

A relevância da ação política dos mineiros pode ser medida pelas ações contra ambos no TSE, fazendo valer o velho ditado segundo o qual ninguém chuta cachorro morto. Se Flávio vencer, dividirá a vitória com Nikolas. Igual Lula terá de fazer com Janones. Mesmo na derrota, continuarão sendo ativos valiosos para a próxima eleição.

O fato de trabalharem com competência e eficiência não faz deles anjinhos ou demônios. Só políticos em busca de votos para vencer a eleição. Como ensinou Shannon, mensagens verdadeiras ou falsas valem o mesmo, desde que cheguem intactas ao destino. A Justiça Eleitoral mandou Nikolas remover conteúdo considerado desinformação, e a campanha de Flávio diz que o canal de Janones distribui links enganosos. O bom resultado de ambos esbarra nessa zona cinzenta.

Nunca é demais lembrar que visualizações medem transmissão, não convencimento, já que mensagem bem entregue não necessariamente muda a opinião de quem a recebe.

Na disputa pela atenção, maior valor da eleição moderna, o resultado já está dado. Nikolas aprendeu ser imprevisível, Janones a ser indestrutível. Nenhum deles virou vencedor por acaso.

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