FRACASSO OU FARSA? - CARLOS CHAGAS
Imagine-se dois exércitos em guerra, um deles preparando fulminante ofensiva contra o adversário, daquelas capazes de obrigá-lo a render-se. No entanto, dias antes do grande ataque, os atacantes surpreendem seus inimigos anunciando dia, hora e rumo em que atacarão. A consequência será óbvia: os supostos derrotados preparam-se, camuflam seu acampamento, escondem suas tropas e armas secretas, deixando os invasores na frustração de que nada valeram o planejamento e o esforço, pois nada conquistaram.
Guardadas as proporções, e com todo o respeito, foi o que aconteceu esta semana com os integrantes da Comissão de Direitos Humanos do Senado, que anunciaram com dias de antecedência a incursão a ser feita na penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão. Preveniram os bandidos, aliás, os de um lado e de outro. Até a agenda de sua visita divulgaram. Resultado: quando desembarcaram em São Luís, só faltou banda de música do governo estadual para recepcioná-los.
Há quem jure ter visto, na entrada da cadeia, faixas elaboradas pelos presos com os dizeres: “Saudamos os ínclitos senadores e o nosso querido diretor pelo congraçamento hoje promovido”. Quem sabe até “Viva nossa maravilhosa governadora!” Se não foi assim, ficou perto, porque o grupo senatorial encontrou tudo armado. No refeitório, tiveram que elogiar a comida. Nos dormitórios coletivos e nas celas, aplaudir as camas bem arrumadas e, nos banheiros, espantaram-se com sabonete e pasta de dente à vontade.
Chefiados pela senadora Ana Rita (PT-ES), presidente da Comissão, e formada pelos senadores João Capiberibe (PSB-AP), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Humberto Costa (PT-PE) e estranhamente João Alberto Sousa e Lobão Filho, ambos do PMDB do Maranhão, por coincidência o estado e o partido da governadora, os visitantes não cogitaram da oportunidade de chegar lá de surpresa, fazendo valer sua autoridade e invadindo o estabelecimento para conhecê-lo como na verdade é, comprovando os horrores denunciados há semanas pela imprensa. Não perceberam, ou, pior ainda, perceberam e calaram, diante do fato de que apenas presos escalados previamente aproximaram-se deles, para dar depoimentos pífios e elogiosos ao sistema penitenciário maranhense.
Saíram como chegaram, ou seja, de mãos vazias, fora os dois aliados do esquema partidário que domina o Maranhão, ao qual servem diligentemente. Quer dizer, nenhum resultado em condições de embasar denúncias, sugestões e projetos destinados a corrigir as distorções e os horrores do que deveriam ter visto, mas não viram. Indaga-se porque não integraram a representação da Comissão de Direitos Humanos senadores como Pedro Taques, Pedro Simon, Roberto Requião, Luiz Henrique e outros de igual quilate, com conhecimento doutrinário e experiência profissional no trato com o Direito Penal?
Mais uma oportunidade perdida pelo Congresso para cumprir suas obrigações, na hora de as atenções nacionais estarem voltadas para o caos reinante num estado que, por haver ficado rico, permite que se cortem cabeças em suas prisões…
Comentários
Postar um comentário