Simulações computacionais indicam potencial de moléculas do óleo de copaíba para interferir em mecanismos da doença de Alzheimer

Antônio Assis
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Descoberta lança perspectivas para desenvolvimento de terapias baseadas em produtos naturais e destaca importância de preservação da Amazônia

Pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Instituto Keizo Asami (iLika), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene) detalhou, de forma inédita, como moléculas que compõem o óleo de copaíba — especificamente o cariofileno e o copaeno — podem interferir nos mecanismos moleculares associados à doença de Alzheimer. A descoberta tem relevância científica e estratégica, pois abre novas perspectivas para o desenvolvimento de terapias baseadas em produtos naturais e destaca a importância da preservação da Amazônia, bioma de onde se extrai a copaíba. O estudo foi publicado no Journal of Molecular Graphics and Modelling, periódico científico internacional da área de modelagem molecular e simulações computacionais.

Por meio de simulações computacionais avançadas, os pesquisadores analisaram a interação desses compostos naturais com o peptídeo beta-amiloide, proteína central no desenvolvimento da doença. O beta-amiloide é um peptídeo conhecido por sua capacidade de se agregar no cérebro, formando estruturas tóxicas que levam à danos e morte de neurônios. Esse processo está diretamente associado ao avanço do Alzheimer e ao surgimento de sintomas como perda de memória, alterações cognitivas, dificuldades de aprendizagem e comprometimento das funções motoras em estágios mais avançados.

Os resultados do estudo indicam que as moléculas do óleo de copaíba são capazes de se ligar ao beta-amiloide e alterar sua conformação estrutural, reduzindo sua tendência à agregação. De acordo com os autores, trata-se do primeiro estudo no mundo a buscar compreender, em nível atômico e molecular, o papel específico das moléculas que compõem o óleo de copaíba na doença de Alzheimer. A iniciativa amplia significativamente o conhecimento científico sobre o potencial terapêutico de compostos naturais da biodiversidade brasileira. A valorização científica desses compostos reforça a necessidade de conservação e uso sustentável desse recurso natural, associando biodiversidade, bioeconomia, ciência e inovação em saúde.

Segundo Iverson Conrado Bezerra, autor principal do artigo, a pesquisa representa um avanço importante na compreensão dos mecanismos da doença. “Nosso objetivo foi investigar se moléculas naturais, amplamente utilizadas na medicina tradicional e pelos povos originários, poderiam interferir em processos moleculares-chave do Alzheimer. As simulações indicaram que esses compostos podem interagir com regiões do peptídeo beta-amiloide diretamente envolvidas na sua agregação, inibindo esse processo, o que é um passo promissor para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas”, afirma.

A professora Priscila Gubert, orientadora do estudo e pesquisadora do iLika, ressalta o caráter inovador da pesquisa. “Este é um estudo pioneiro, que integra bioinformática, química e neurociência para explorar o potencial terapêutico de compostos naturais brasileiros. Além de contribuir para a ciência internacional, o trabalho evidencia o valor da biodiversidade nacional e a necessidade de preservá-la como fonte de inovação científica”, destaca.

Os autores enfatizam que os resultados apresentados até o momento são provenientes, exclusivamente, de simulações computacionais, uma etapa fundamental para a compreensão de mecanismos moleculares complexos. Dessa forma, é importante ressaltar que os tratamentos atualmente disponíveis para a doença de Alzheimer permanecem sendo, até o momento, os mais indicados para o manejo da condição. A equipe atualmente realiza estudos in vivo com o objetivo de validar os achados observados e avaliar o potencial terapêutico dessas moléculas em sistemas biológicos reais.

O artigo é também assinado por Jéssika de Oliveira Viana, Jocelin Santa Rita Bisneto, Gabriel Gomes Cavalcante, João Gabriel Barbosa de Luna, Artur José da Silva, Karen Cacilda Weber, Giovanna Machado e José Luiz de Lima Filho, pesquisadores vinculados à UFPE e às instituições parceiras.

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