UFPE concede título de Doutor Honoris Causa ao mestre de capoeira e pescador Mestre Peu

Antônio Assis
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O título honorífico é destinado a personalidades que tenham contribuído para o desenvolvimento da Universidade, da região ou do país

O mestre de capoeira e pescador Pedro Luis Soares da Silva (Mestre Peu) recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na sexta-feira (23), em uma cerimônia realizada no Auditório Reitor João Alfredo, localizado no 1º andar da Reitoria. O evento no Campus Recife foi prestigiado por familiares e amigos do homenageado, por integrantes de vários grupos de capoeira e por representantes de setores da UFPE, da Secretaria de Esportes de Pernambuco e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

Após a entrada do Mestre Peu, acompanhado por sua comissão de honra, houve uma apresentação musical com o Mestre Barrão, o Mestre Lua e o Mestre Melodia. Após o trecho da cerimônia que é dedicado aos discursos, pessoas que fazem parte da capoeira em Pernambuco também prestaram suas homenagens, entregando placas, berimbaus e peças artesanais a alguns presentes. E, ao final, após a saída do auditório, se formou uma roda de capoeira.

O momento dos discursos foi iniciado pelo professor do Departamento de Educação Física da UFPE Henrique Gerson Kohl, o Mestre Tchê, que lembrou diversos momentos da história do Mestre Peu e da capoeira em Pernambuco. “O grande desafio é tentar fazer um exercício de gratidão que possa estar pelo menos próximo daquilo que segue significando o Mestre Peu”, iniciou o professor.

Henrique citou, por exemplo, a contribuição para a Marcha da Capoeira Zumbi dos Palmares, que ocorre no dia 20 de novembro no centro do Recife (ela chegou à 15ª edição em 2025). “Uma expressão de coletividade do nosso Mestre”, definiu o professor, que também falou sobre a participação no Fórum da Capoeira do Recife, sobre a roda de capoeira no Mercado de São José e as representações em outros estados e países, entre muitos outros exemplos de atuação.

“Educação, cidadania e política cultural, Mestre Peu é protagonista de projetos sociais e educativos. Participação em inúmeros conselhos e fóruns. A capoeira como política pública viva, o Mestre Peu é signatário disso. Referência da capoeira pernambucana, guardião de tradições e memórias, sempre fala sobre o estado da gente. Construtor de pontes entre gerações, tem vários exemplos aqui nesta plenária. Respeitado por mestres e mestras, demais graduações e comunidades. Legado: saberes e fazeres ressignificados de corpo em corpo; histórias que não estão nos livros, mas vivem nas rodas; um legado que segue em movimento”, seguiu o professor.

Durante a cerimônia, foi exibido um vídeo sobre Mestre Peu (com licença ao mestre Barrão e à página Pernambuco Tem Capoeira Sim Senhor, signatários do vídeo). Nas cenas, Mestre Peu fala sobre o primeiro contato dele com a capoeira: “Em 1976, minha irmã se casou com um cidadão chamado José Borges da Silva. Ele tinha um berimbau e eu achei interessante aquele som que saía. Eu fiquei apaixonado e entrei de cabeça. Cabeça, coração e alma. Foi através da musicalidade, do ritmo. Não sabia nem que ela ia chegar onde ela está hoje. Eu acho que hoje a capoeira para mim representa tudo. É esporte, é vida primeiro. Acho que a capoeira é educação, é transformação. Eu tenho isso como prova, me lembro que eu transformei e muita gente ser transformada. Então, para mim, a capoeira é tudo, é transformação, é arte, é cultura, é dança, é poesia”.

O Mestre Peu – que entrou no auditório acompanhado pela comissão formada pela esposa, Girlene Maria dos Santos; pelas filhas, Maria Clara e Sofia Soares Santos Silva; pelo Mestre Dentista; pelo Mestre Barrão; pelo Mestre Toinho Pipoca e pelo Professor Cabral – discursou em seguida. Ele também compartilhou uma série de informações sobre a história da capoeira em Pernambuco, comentou sobre o acervo que vem construindo ao longo do tempo e a participação em conferências, por exemplo. “Foi ali que eu aprendi, foi ali que eu conheci alguns políticos, foi ali que eu comecei a entrar em outra roda de capoeira que não era a do toque do berimbau, foi ali que eu comecei a enxergar que a gente precisa de uma política pública para melhorar a nossa arte. Porque nós somos fortes, mas nós não temos uma casa ali no centro da cidade do Recife com as histórias de cada um de vocês, que são ricas”, afirmou.

Mais tarde, o Mestre Peu seguiu fazendo agradecimentos. “É uma série de histórias, de conversas que a gente vai ficar aqui um mês e não vai chegar no final. A capoeira se baseia nisso, acho que cada letra é uma história. Quero agradecer a todos vocês de coração. Quero dizer que este prêmio aqui é nosso, se sintam agraciados. Quem ganhou foi a nossa arte, a nossa luta, o nosso enfrentamento com a nossa capoeira”, concluiu.

SOLENIDADE – O Doutor Honoris Causa é um título honorífico destinado a personalidades que tenham contribuído para o desenvolvimento da Universidade, da região ou do país pela sua atuação em favor das ciências, das letras, das artes, dos esportes ou da cultura. A concessão do título de Doutor Honoris Causa ao Mestre Peu foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) da UFPE, no dia 16 de outubro de 2025.

Durante a cerimônia para entrega do título, transmitida ao vivo pela Diretoria de Comunicação (Dircom) por meio do canal da UFPE no YouTube, outros integrantes da mesa solene também falaram ao público.


A secretária de Esportes de Pernambuco, Ivete Lacerda, que estava representando a governadora Raquel Lyra, comentou: “O Mestre Peu não é apenas um mestre da capoeira, ele é um guardião da memória e um educador social. Através do seu ensino coletivo, transformou vidas, formou cidadãos e levou a filosofia do jogo da vida para além das rodas de capoeira”.

“É uma honra estar aqui representando meu departamento. Queria parabenizar ao Mestre Peu, a toda a comunidade da capoeira, aos familiares, por essa conquista tão importante”, seguiu a chefe do Departamento de Educação Física da UFPE, Karina da Silva Ferreira.

“Gostaria de dizer da nossa satisfação enquanto Universidade de poder dar este título porque é a gente que aprende, a gente é quem ganha. Quando vocês estão aqui mostrando que capoeira é ciência, é saber, é conhecimento, isso é muito importante para a universidade reconhecer. E ela reconhece porque vocês fazem e fazem muito bem”, pontuou a pró-reitora de Extensão da UFPE, Conceição Reis.

A pró-reitora de Cultura da UFPE, Mariana Brayner, deu continuidade aos discursos: Hoje a capoeira ganha um representante que tem uma missão lindíssima, que traz além do gingado, além do toque do berimbau, um conhecimento que vem da resiliência, da luta. É uma honra para a universidade tê-lo em nosso quadro de doutores”.

“Os saberes ancestrais que mestres como Peu preservaram e compartilham são fundamentais para nossa sociedade, pois ensinam valores como respeito, pertencimento, comunidade e cuidado com o outro. Eles nos lembram que conhecimento também nasce da experiência, da oralidade e sobretudo da tradição. Para as universidades, reconhecer esses saberes é um passo rumo a uma produção de conhecimento mais diversa, mais justa e conectada com a realidade do povo. E nós como esta universidade temos esta missão”, avaliou a vice-diretora do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFPE, Daniela Feitosa.

“A capoeira é uma pedagogia popular, representa a cultura do povo brasileiro e é também um instrumento de resistência popular. Ficamos muito orgulhosos em ter todos vocês aqui mais uma vez e poder fazer esse reconhecimento de brasilidade que nós estamos fazendo hoje através deste título ao Mestre Peu”, afirmou o vice-reitor da UFPE, Moacyr Araújo (em 2022, a UFPE outorgou o título de Doutor Honoris Causa ao Mestre Pirajá).

O reitor Alfredo Gomes discursou ao final da cerimônia. “Ao conceder o título de Doutor Honoris Causa ao Mestre Peu, a UFPE afirma algo essencial: o saber não mora apenas nos livros, ele vive nos corpos, na oralidade, na ancestralidade, na experiência transmitida de geração para geração. Mestre Peu é universidade viva, é biblioteca em movimento, é tese defendida na rua, no terreiro, na roda, no olhar ao atento um ao outro. Hoje, ela (a capoeira) entra pela porta da frente da Universidade Federal de Pernambuco, não como concessão, mas como direito histórico”.

*Foto de Luciana de Souza Leão / Ascom UFPE

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